ANTÓNIO GIL in «CANTO DESABITADO», poema de encerramento do ciclo «ECOS» (Cadernos de Poesia da Colecção Coisa que Não Existe, Edição Ave Azul, 2005)
*
ferida aberta, cada um de meus sonhos se fez sulco e por essa dor aferida, a cicatriz se fez senda: por aí ainda caminha a cega face que vou tendo, dela só sei que segue, a cada passo me vertendo naquilo que vou sendo...
... refaço-a a partir do vago compasso da ventania, do estalar da vaga, do solo ressumando a litania dos dias já completos, do coro de insectos que desde o colo ouço, do som estelar que decora o colosso de cacos, dos incontáveis pedaços que colo e retraço...
entre paisagens e noites de gasto esforço, de viagem em viagem, o escorço se fez curso. nas margens do vento, colho a vagem e a semente que recolhe ao solo que escolho. nele acampo e sonho a tenda que levanto: esse o campo, onde implanto o rebento que me reinventa e me suplanta...

Sem comentários:
Enviar um comentário