sábado, 29 de junho de 2013























ANTÓNIO GIL in « INDÚSTRIAS DO ABSOLUTO» (Areias do tempo 2011)

Arrepia-se-me a pele
quando dicurso sobre arte:
combino rasgos de Mozart
com progressões de Ravel

planeio um dia reunir
em estranho sonho ubíquo
as paisagens de Chirico
com interiores de Vermeer

será uma ideia venal
reconheço a criancice:
terei «décors» de Matisse
com exteriores de Chagall

sou o emissário do sublime
e nesta profissão tão rara
permitem-me amar Tzara
e fornicar com Céline

eis-me no supremo estádio
do talento triunfante:
a grandeza de Bramante
a proporção de Palladio

farei Arte que perdure
supreendendo o Diabo:
darei a leveza de Gabo
à massa inerte de Moore

sou o adepto do choque
da combinação certeira
prego pasmos de Oliveira
às tensas teias de Hitchcock

sou esteta e por conseguinte
passo bem por impostor
fecundo máscaras de Ensor
com filigranas de Klimt

excedo-me: sou volúvel
cruzo em sublime deboche
as alucinações de Bosch
com o grotesco de Brueghel

sinto próximo o avatar
da luz que beija e agride:
teço doçuras de Ingrid
com angústias de Ingmar

e para quem não me ouve
sinto ainda mais afã
de introduzir em Chopin
os ribombares de Beethoven

assumirei o «status quo»
dos deuses de circunstância
da moda e da elegância
que finge vestir o nú

e na arte em que me instalo
posso bem dar-me ao luxo
de assinar, de alto e repuxo
um produto que aqui calo

e assim fugido ao fado
-alexandrino ou outro
eis meu endereço, dou-to
com o mundo que enquadro

*

Imagem: Capa de «Indústrias do Absoluto» concebida pelo autor

Sem comentários:

Enviar um comentário