segunda-feira, 1 de julho de 2013

António Gil in «Ciclo Marítimo», poema publicado na Revista Plágio, ano de 2002


Às vezes rebenta-me o mar nos lábios
na voz , nos reveses da pele e da língua
no reaceso vento que, de ocidente, o impele
contra o mangue: rebenta-me o mar no sangue
na garganta e o demente furor que o decanta...

...rebenta-me nos órgãos
na linfa, às vezes o mar entra-me pela boca
entranha-se no ar que respiro, na voz,
na melodia que persigo,
emaranha-se nas veias, rebenta-me:
consigo senti-lo nas têmporas
no pulso, no sal do suor que destilo...

...e contra os esporos
rebenta-me: na restinga da tarde

entra-me pelos poros, pelas pupilas
sinto-o no sal que no sabor distingo
nas papilas, às vezes no odor que transpiro
rebenta-me o mar nos vasos
entra-me pelos tímpanos
e em todos os sentidos, em todos os casos:
rebenta-me...

IMAGENS: Aguarelas do autor

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